Turbinas ligadas

Um match de aplicativo. Uma chamada de vídeo. Um encontro. E fim de papo: dez meses depois estávamos noivos. Resumindo, foi mesmo isso que aconteceu: uma série de eventos simples, que aconteceram naturalmente e que, de maneira fácil, mostrou pra nós que o certo era passar o resto da vida juntos. Prático, bem encaixado, óbvio e sem drama: como tudo deveria ser...

Mas, a noiva foi solicitada para escrever a história do casal, então... Bom, ela não poderia resumir tudo a um parágrafo. Embora ser direta e precisa seja uma de suas qualidades, contar “causo” também é. E agora, meus amigos(as), aí vai a nossa verdadeira história...

João e Ariane (ou “Ane”, como eles gostam) nasceram no mesmo hospital, frequentaram algumas vezes sincronamente (e sem saber) a Rua Polônia em Santana do Parnaíba, e Ane fez um passeio com a escola no terceiro ano do ensino médio para visitar uma faculdade e fazer um teste vocacional: exatamente na faculdade que João estudava. Na última vez que o João tocou com a sua banda na choperia Munique (perto de 2018), a Ane estava lá, e, de tanto que gostou do som, pegou um cartão da banda (que tinha um logo que o João desenhou). Ela lembra bem do vocalista (amigo de infância do João) mas, como tudo tem seu tempo, na época, ela simplesmente não enxergou o João na banda. Por motivos que não cabem discursar sobre, Ane não assistiu a mais nenhum show da banda até que, quando conheceu João (seis anos depois), arregalou os olhos quando viu o Renan tocando com o “Hurricane” e disse: “ai, caramba, eu conheço essa banda!”

Na época em que Ane baixou o aplicativo que conheceu o João, só o fez porque o slogan era “encontre sua alma perdida”. Hoje o slogan é mais delicado e diz “Encontre sua alma gêmea ou seu melhor amigo”. Além de ter achado a frase engraçada, percebeu que o aplicativo ainda por cima era inteligente: pra se cadastrar, você respondia antes ao teste de Myers-Briggs (MBTI), para com isso, descobrir o seu tipo psicológico e dar o “match” apenas com pessoas cujo tipo psicológico avaliado pudesse ter afinidade com o seu. E lá foi ela, a “arquiteta” encontrar algo que pudesse ser compatível, não só com seu cérebro, mas com outros filtros que ela colocou no “cardápio”.

Uma semana antes de conhecer o João, Ane mandou uma mensagem nada apaixonada para o desenvolvedor do app “detonando” o mecanismo de busca: simplesmente o app “zerava” suas preferências e mandava alienígenas como opção de possível “date” – perfis que prontamente eram excisados do cardápio pela nossa atual querida (mas nada condescendente) noiva. Bom, em uma dessas “falhas”, um filtro que o aplicativo zerou foi o raio de busca: manteve todos os outros filtros, mas aumentou o raio de busca automaticamente. E aí... A foto do João apareceu.

Ane olhou o queixo erguido, a barba por fazer, o rosto sem grandes sorrisos, o nariz bem desenhado e lhe veio um pensamento automático, como uma voz suave que apareceu dentro da sua cabeça: “Esse homem é sério. Teimoso igual uma mula... Mas sério e respeitável”. Ane gostou dessa sensação de paz: não sentiu euforia, achou ele bonito e deu um like. Sem ler a bio. Sem ver as fotos da épica que ele tinha cabelo longo (Credo...). Menos de 30 dias antes desse “like”, o João teve o “insight” de ir no barbeiro – sim, anjos da guarda existem – e trocou a cabeleira longa e emaranhada de “Asa de Águia” pra um estilo mais “sério e teimoso”. Mal sabia ele que essa mudança de imagem seria um fator decisivo pra Ane lhe dar um “coraçãozinho”. Depois que curtiu o perfil do moço sério e teimoso (adoro!), Ane fechou o aplicativo e foi cuidar da vida.

Do lado do João, ele viu que tinha recebido uma curtida de uma moça que tinha um texto enorme na bio, tinha um subtipo emocional compatível com o dele, mas... Tinha uma foto horrível de perfil. Ane tinha, de propósito, colocado “barreiras de uso” no seu perfil: a única foto que ela pôs foi tirada de noite, a meia luz de um pub, em que seus olhos apareciam castanhos, seus cabelos escuros e seu rosto borrado. Não havia informação profissional disponível, e muito menos nada que fosse exatamente romântico: ela apenas dizia o que procurava em um relacionamento e em uma pessoa e ponto – se você se enquadrasse, poderíamos ir para o próximo passo. Nada convidativo...

Isso porque Ane pensou “o cidadão vai ter que ler esse texto inteiro e gostar do que leu. Depois ele vê meu rosto.” Yeap: ela sabia que isso poderia empacar as coisas e não estava com pressa. Ela pagou um pacote de 6 meses do aplicativo para usar todos os recursos e pensou: “com esse perfil, talvez eu precise do pacote anual, mas em Outubro eu penso nisso”.

Bom... Três semanas depois, ela estava trocando mensagem com o João. Quando se adicionaram no Insta e o João teve acesso a mais imagens dela, ele teve certeza de que era uma página fake e ele tinha caído num golpe: a menina inteligente e legal, mas de nariz grande, olhos castanhos, cabelo escuro e profissão indefinida era uma moça de olhos verdes, cabelo castanho claro, cirurgiã dentista e com formação em medicina chinesa. Bom, o nariz dela de lado não era dos melhores, mas valha-me Deus: aquelas fotos eram um golpe. Ela não existia na vida real. Era linda, inteligente, disponível e honesta... Tinha alguma coisa errada.

A certeza de que tudo estava fora do lugar veio quando, ao marcarem o primeiro encontro, Ane sugeriu que eles fossem visitar a Pinacoteca em um domingo. “Pinacoteca? Que raio de ‘date’ estranho do cão...”, pensou João. Mas não tinha nada de estranho: a futura noiva era peculiar em suas estratégias mas, embora fosse uma pessoa complexa, tinha gostos simples. E por falar em gostos: ela amava a vida do João, sem saber que fazia isso. Ela amava praia, tinha descoberto recentemente que gostava de cantar, amava artes, desenho, pintura, cozinha, músicas do Zelda (que ela achava que eram apenas músicas de DIY do YouTube, e nem sabia que eram de um jogo)... Ane amava tudo que João era e, assim como ele passou a entender a simplicidade dos seus gostos, mesclada com a complexidade do seu raciocínio e do seu temperamento, por causa do João, ela passou a amar ainda mais tudo que já gostava: simplesmente porque João fazia tudo em dobro e melhor ainda do que ela já tinha experimentado ou visto. Uma Arquiteta e um Comandante era, de fato, um bom match.

Dez meses se passaram até que João ajoelhasse a beira de um rio, com um anel de pedra azul na mão, dizendo: quer casar comigo? E a partir daí eles até se esqueceram dos tempos em que namoravam, dos tempos em que não se conheciam... De uma maneira diferente de tudo, João causou (e causa) na Ane uma sensação de paz, de aconchego e de pertencimento e, até hoje, ela agradece por ele ter cortado o cabelo e escolhido a foto certa para o aplicativo que, assim como tudo ao nosso redor, mostrou-se estar à serviço de Algo Maior. Esperamos de coração que essa história sirva para você olhar a sua narrativa com o mesmo carinho que olhamos a nossa, e a confiar sempre no Caminho, no Tempo e no Algoritmo da Vida.